domingo, 12 de janeiro de 2014

† Doce esperança

Seria esta uma história bela, se a esperança não fosse aquele inseto verde – caçado pela minha gata vira-lata – caído e esquecido embaixo do armário da cozinha. E o pior: só se tornou doce depois que o pote de açúcar escorregou de minhas mãos estabanadas, e os pequenos flocos foram parar em cima do bicho, já rodeado por formigas. A esperança foi doce, intacta e ainda verde para o lixo. E já que ela não morre, o que me resta é eternizá-la nestas palavras frias, como a sua cor. 

domingo, 6 de outubro de 2013

Semântica


Num sábado de sol
Peguei um ônibus

Azul

Da cor do céu
Da cor do mar

O dia ficou tão bonito...
E agora azul vai ser esperança

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Inquietação

Deu voltas e voltas e voltas na mesa
Sem ser preciso dar corda
Combustível sentimental
Altamente explosivo
Inesgotável
Passageiro...  

sábado, 10 de agosto de 2013

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Utilidade básica

é tanto tipo de -t-
e não se nota

no entanto
entretanto
todavia

sem eles
não se liga
nem as ideias
nem os eletrons

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Calçofobia

Neste inverno
Estou com calçofobia
Ou fobia de usar calça jeans
Ao meio-dia


Vitória, 23 de julho de 2013


Reino distante

Andando na rua,
olhei pro lado

Havia um estabelecimento chamado salão
das testemunhas de jeová

Pensei:

se vaidade é pecado,
por que um salão só pra elas?


terça-feira, 25 de junho de 2013

Brilho imóvel - alugado

Enquanto a rede vai e volta  na varanda
Enquanto as nuvens correm atrás do vento
Enquanto o azul-marinho-celeste se desbota

As estrelas...
Ah, as estrelas!
Ainda estão lá...

Acampando no céu
Para anunciar um novo dia de sol

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Registro

Pensamentos vêm e voam
Palavras-plumas vagam

Pousam
Posam

E no papel [ou nas nuvens]
Se fazem eternas

Misteriótipos

Acordei com cara simpática hoje. Digo isso porque fui escolhida várias vezes para dividir o assento do ônibus com duas ou três pessoas. A segunda pessoa era um assaltante, mas daqueles bem camuflados, sabe como? Vestido como se estivesse indo ou voltando do trabalho no horário de almoço. Eu não caio nessa, fui logo desconfiando. 

De repente, o carinha pega o celular e diz, descaradamente, em alto e bom tom, para o seu comparsa pegar o ônibus em cinco minutos. Fiquei indignada! Como esses bandidos modernos são audaciosos, combinando um assalto no pé do meu ouvido. Pensei em descer do ônibus, mas não queria chegar atrasada no trabalho. Claro, se fosse para chegar atrasada, que fosse com uma boa justificativa, no caso, um assalto à mão armada, um sequestro ou...

Meu relógio biológico apontava que cinco minutos já haviam passado há alguns minutos, então relaxei um pouco. Mas vai que ele tenha calculado errado? E se fosse um blefe do bandido? Dois pés atrás, olhos e ouvidos bem atentos, por via das dúvidas.

Ele estava completamente calado e eu também. Normal. Mas na cabeça dele passavam-se as próximas cenas, minunciosamente arquitetadas com seu parceiro, que estaria com o mesmo disfarce, entraria no ônibus e faria uma pergunta ao trocador, enquanto ele me escolhia como refém. Eu pensava a mesma coisa, já tinha sacado tudo!

Então olhei para o lado e vi, na rua, uma motorista de ônibus mulher. Anormal. Todo mundo sabe que mulher não dirige ônibus, e que existem poucas trocadoras, provavelmente porque o primeiro pré-requisito para a profissão é ter bigode ralo. Mulher de bigode nem o diabo pode! Foi aí que eu quis que o trocador do ônibus fosse mulher, certamente colocaria o plano deles por água abaixo. 

Eis que entra um rapaz engomado. Fiquei estática! Reparei bem, olhei com rabo de olho o sapato, a calça a blusa e... Opa! A manga da blusa social não foi suficiente para cobrir o que eu procurava. O braço do rapaz era todo tatuado. O suspeito foi para o fundo no ônibus sem trocar nada com o trocador além de moedas, invalidando minha teoria. Não era ele.

Passando alguns pontos, resolvi saber mais sobre o rapaz da tatuagem. Já era tarde demais. Se ele não era comparsa do bandido, porque usar camisa social em um dia de sol? Por que cobrir a tal tatuagem? Nenhuma pista. Nem sabia o lugar onde ele havia descido do ônibus.

Nessa altura do caminho, o comparsa do bandido já tinha entrado no ônibus errado, falado com outro trocador e lamentado pelo plano sem sucesso. Então, o bandido desistiu do assalto e desceu no ponto do shopping, o que me faz concluir que o seu comparsa, na verdade, era uma espécie de namorada que o esperava para almoçar no na praça de alimentação ou que tudo o que pensei anteriormente seja mesmo verdade.

Agora, uma mulher gordinha sentou ao meu lado, mas ela não é nada ainda, além de gordinha.

domingo, 6 de novembro de 2011

Amor de chuveiro

Tirei a roupa, olhei o espelho, coloquei a touca e entrei parcialmente debaixo do chuveiro. Eu só precisava desabafar aquelas coisas guardadas, sabe? Contei pra mim, que foi o jeito. Eu não queria, mas aquele vidro embaçado me chamava, quase implorava para ser decorado por coraçõezinhos apaixonados ao lado do meu nome & de sei lá quem. Em menos de dez minutos de banho quente, estava eu lá, desperdiçando tempo e água, completamente envolvida com a minha arte. Patético!

Em meio à minha súbita inspiração de pintora de banho, cheguei a uma conclusão simples: pessoas apaixonadas não sabem o que fazem. Analisando assim, de fora, existe coisa mais impensada do que escrever o nome de quem se ama na beira da praia? A primeira ondinha que chegar leva o amor embora. Agora, espertos mesmo são aqueles que escrevem declarações em cima de qualquer pedra alta, esses sim, amam de verdade. E adianta de quê? O amor acaba e a pedra tatuada só vai servir pra lembrar o quão trabalhoso foi fazer aquela letra num tamanho razoável para ser vista da ponte. Tatuagem de verdade, nem se fala...

Deixei a arte de lado, ignorei a imaginação e continuei o banho como uma pessoa normal. Enfim, secos. Eu e o vidro. Sem perigo, sem amor, sem sujeira... Mudei a roupa rindo de mim mesma. Lembrei daquela cena e imaginei como seria bom ser mosquitinho-mosca, daqueles que sempre tem banheiro, pra ver se alguém, além de mim, faz esse tipo de coisa. A vida continuou... 

O dia passou rápido e eu nem lembrei do meu amor, ex-amor, desamor, nunca amor... Estive focada em todas as minhas ocupações, sem nenhum problema como falta de atenção, euforia, coração acelerado, apertado... Nadinha! Estava curada. Até a hora do banho. Tirei a roupa, olhei o espelho, nem coloquei a touca. Entrei no chuveiro já preparada para segurar os dedos, decidida a nem olhar pro boxe. Esfreguei bastante o corpo, lavei o rosto, passei o shampoo. Num abrir rápido de olhos irritados pela água, lá apareceram, misteriosamente, no vidro embaçado, as palavras tão persistentes... Maldito amor! O danado é mesmo mágico...

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Voltando do rock

sexta passada
um pouco amarrotada
tudo fora do lugar

perdi minhas chaves
fui chamar um táxi
não achei meu celular

Meus queridos chinelos

Desde muito tempo, sempre os mantive em meus pés. Lugar de chinelos é nos pés. E virado para baixo, pra a mãe não morrer. E sempre limpos para não sujar o chão. Nem os pés. Nem de chinelo e nem de chão. E nem machucá-los, os pés. Eu aprendi que os meus chinelos eram extremamente importantes para a minha integridade física e moral. Sempre tão protetores, ao mesmo tempo tão livres, simples e ousados... não eram sapatos, eram puramente chinelos... como biquínis de pés! Sempre gostei de usar.

Até que um dia, permiti aos meus chinelos férias bem curtas, e aos meus pés também. Foi um consenso. Deixei, debaixo da minha solitária cama, meus mais preciosos e únicos chinelos. Enquanto todos dormiam de meias nos dias frios de inverno, eu também o fazia. Usava meias coloridas em cores quentes para aquecer os meus queridos chinelos. Os pés também gostavam.

Esse era um dia de verão, no qual eu não usaria meias, e pela primeira vez também não usaria meus chinelos para dormir.  E então pude sentir a maciez impalpável das nuvens de algodão e nylon que cercavam meus pés, deixando-os nem presos, nem soltos, seguindo o vai-e-vem ocasionado pela sutileza de um vento regulável. Um vento médio que acariciava meus intocáveis e tão limpinhos pés. Eles vinham e traziam toda a leveza consigo, iam-se deixando um pouco de calor até a sua volta. Voltavam trazendo frescor, iam... E agora eu já nem sentia mais.

Eu corria, corria, corria sem parar. Liberdade, a tão sonhada liberdade! O chão era quente, muito quente. O asfalto sujo de todas as coisas de rua que se foram acumulando ao longo da noite. Já era outro dia. Eu buscava incessantemente algo. Corria, corria, corria... o asfalto marcado com pés ensanguentados que não podiam ser os meus. Mas eram. E foi a liberdade. Bandida!

Continuei... Agora tentei achar a minha casa. Corria, corria, corria... até que entrei num lugar conhecido. Era a minha casa? Era... era a minha casa. Meio diferente, num lugar diferente, mas acho que era a minha casa. Cheguei gritando de dor. Mãããe! Mãããe! Mããããe! E nada. Estava estirada no chão, ela....  ela não estava. E aí começou a doer ainda mais. Eu chorei demais...

Nunca mais tirei os meus chinelos.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Aniliquidação

Abracadabra
a porta se abre
Dez em ponto
corre a multidão
Todos a postos
como cãezinhos
modernos
Din! Din! Din! Din!
toca o sinal
As portas se abrem
Todos pra dentro
Vasculham
farejam...
O suor pingando
das nucas
As bolhas estourando
nos pés gordos
O líquido escorrendo
dos bolsos magros
Os estômagos se refrescando
com Coca-Cola
Dez em ponto
todos cuspidos pra fora.


sábado, 18 de junho de 2011

Meio perfeito

O perfeito é tão...
perfeito.
E isso o torna tão...
sem graça.
O que já é um defeito...
e me soa até engraçado. 

domingo, 5 de junho de 2011

Outro tipo de maçã


Nasci verde.
Ninguém quis provar.
Esperei...
Vivi, cresci...
Continuei verde.
Mas, ora, sou verde!
Pra que mudar?



domingo, 1 de maio de 2011

Chiclets

balanço a caixinha colorida
o parzinho bate-bate
vai pra lá, vem pra cá
traz lembranças imemoráveis

aberta vai à palma, que vai à boca
o par de sabor fugaz
amortece o paladar
esconde os dentes da frente

até que o gostinho sesvai
os quadradinhos desgastados
totalmente mastigados
viram decoração...